Viva Pelé!
Mas calma aí...
Não sei se você reparou, mas... é bem esquisito que “pelé” tenha sido classificado pelo dicionário Michaelis como adjetivo — além de substantivo (claro).
[Olha a expressão facial do Pelé, na imagem, fazendo uma cara de “P$#&@, Michaelis, ADJETIVO?!”.]
Realmente não consigo imaginar nenhum exemplo real dessa palavra como adjetivo, e sim tão somente como substantivo derivado por conversão (de nome próprio a comum): por isso agora escrito em minúsculo mesmo, como se vê nos exemplos dados na imagem anexa.
Se “pelé” deve ser classificado como “adjetivo”, entendo que o Michaelis deva apresentar exemplos possíveis desse uso, o que ainda não o fez. Será que?...
Pense aqui... Pode-se interpretar “melhor” como adjetivo em frases como “Ele é o melhor da nossa equipe”? Penso que sim, mas me parece melhor entender que houve uma substantivação do sintagma nominal condensado pelo adjetivo “melhor” seguido de um substantivo implícito (Ele é o melhor jogador da nossa equipe > Ele é o melhor da nossa equipe).
Não me parece ocorrer o mesmo em “Ele é o pelé da nossa equipe”, pois aqui há uma metáfora marcada pela conversão do nome próprio em comum, em que se compara um indivíduo qualquer com o jogador Pelé, devido às suas habilidades. Portanto, por mais que contextualmente tenha um valor semântico qualificador (justificada pelo uso expressivo da metáfora), nasceu substantivo e continuou como substantivo, e não como adjetivo.
Ademais, mera curiosidade aqui: como seriam os graus dessa palavra, se tomássemos “pelé” como adjetivo?
Ele é mais/menos/tão pelé (do) que/como/quanto você?
Ele é extremamente pelé?
Ele é pelecíssimo?
Ele é o mais/menos pelé do grupo?
Estranho, não?
Como brasileiro, percebo que “pelé” só poderia ser usado (natural e produtivamente) como substantivo, assim como ocorreu com “judas” (registrado no Michaelis apenas como substantivo, e não como adjetivo, ora, ora):
Você é um judas por nos ter feito passar por isso.
O terceiro sócio foi o maior judas da empresa, destruindo nosso negócio.
A ver o que o futuro nos reserva sobre o uso e a atual classificação de “pelé” como “adjetivo”. Creio (só creio) que o Michaelis terá de rever a classificação morfológica desse neologismo. Bem curioso mesmo. A ver...
Ah, e viva Pelé, que realmente merece estar no léxico!
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