Tomate ou tumate?
Em seu livro “Sofrendo a gramática”, nas páginas 18 e 19, afirma convictamente o linguista Mário Perini:
“Um dos aspectos mais traiçoeiros dessa limitação da mente humana é a grande vontade que todos nós, lá no fundo, temos de encontrar as coisas ‘certas’ — a vontade de que os fatos venham a confirmar brilhantemente nossas convicções confessas ou implícitas. Quando Galileu, utilizando pela primeira vez uma luneta para examinar o céu, descobriu quatro dos satélites de Júpiter, a opinião geral ficou contra ele. Argumentou-se que só podia haver sete planetas, nem mais nem menos: afinal só há sete aberturas na cabeça; só há sete dias na semana; e só há sete metais. Logo, os planetas são apenas o Sol, a Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno (a definição de ‘planeta’ era diferente da de hoje, claro). Conclusão inevitável: Galileu não tinha visto, não podia ter visto satélite algum; era ilusão, ou talvez mentira dele.
A história da ciência está cheia de casos como esse. Um exemplo desenvolvido em detalhes está no fascinante livro de Stephen Jay Gould publicado no Brasil com o título ‘Vida maravilhosa’. Nesse livro, Gould relata um caso em que a interpretação de certos dados (no campo da paleontologia) foi falseada por influência de expectativas prévias.
Todas as áreas de investigação correm esse perigo; e a gramática não é exceção. Vou mostrar alguns exemplos em que o desejo de encontrar confirmação para as crenças do observador leva a uma descrição da língua seriamente falseada. São exemplos muito comuns, e creio que a maioria dos leitores já teve contato com eles.
Vamos começar com um caso bem simples, que tem a ver com a relação entre a ortografia e a pronúncia: a primeira vogal da palavra tomate, na pronúncia, é U. Isso não é característica da ‘pronúncia inculta’, mas da fala de todas as pessoas, de qualquer classe social ou nível de escolarização. Se você não acredita, vá ao mercado ou ao sacolão e fique de tocaia junto a uma banca de legumes: quantas pessoas perguntam o preço do ‘tumate’, e quantas perguntam o do ‘tomate’? Você rapidamente se convence de que a pronúncia normal é com U. No entanto, muita gente nega isso. Alguns professores de português (que deveriam estar bem-informados a respeito) insistem comigo que ‘a pronúncia é com O’.
Eles não podem ter chegado a essa conclusão observando os fatos, pois estes não a sustentam. Foram levados a acreditar que o ‘certo’ é pronunciar como se escreve (sempre que possível); é como se a escrita tivesse primazia sobre a pronúncia. Daí, passam a acreditar que aquilo que ouvem a todo momento não existe. Não querem ouvir e, por conseguinte, não ouvem o U de tomate.”
Como eu sou um bicho curioso, fui buscar saber se é verdadeira essa afirmação peremptória do linguista, a saber, de que todas as pessoas falam tumate, e não tomate, ou seja, de que 100% dos brasileiros pronunciam com som de U a vogal O da escrita.
Para isso, nada melhor do que fazer uma enquetezinha marota. Mais ainda: pedi ajuda a alguns amigos, que fizeram o mesmo, perguntando como as pessoas pronunciavam essa palavra.
O resultado foi o seguinte: cerca de 60% das pessoas disseram pronunciar tomate.
Será que esses brasileiros da enquete estão errados, será que eles acreditam no que querem acreditar, será que sua percepção linguística da pronúncia dos outros e de si mesmas é uma ilusão... ou o linguista se equivocou?
Com vocês, está aberto o microfone: deixem aí nos comentários como vocês ouvem as pessoas pronunciarem essa palavra no seu estado, na sua cidade: tomate ou tumate?
Eis abaixo uma lista de vídeos de brasileiros falando a palavra “tomate” no YouTube. Ficou curioso? Aperte o play e simplesmente ouça:
Benefícios do Tomate - Para que serve, propriedades e dicas (Nutricionista Patrícia Leite) [clique]
O melhor truque para plantar tomate (Érika Canton) [clique]
Receita - Molho de tomate [clique]
11 tipos de tomate que você precisa conhecer [clique]
Só jogar a palavra “tomate” no YouTube e ver os brasileiros de diferentes regiões pronunciando essa palavra de diferentes maneiras. Divirta-se!
Recomendo a leitura do meu novo livro: “Norma culta inculta: a subversão da gramática”. Disponível em e-book pelo Kindle e em versão física. Clique aqui.


