Mas, professora...
— Já a conjugação do verbo “ver” no futuro do subjuntivo é um pouco diferente daquela que a maioria das pessoas falam no dia a dia. É assim: quando eu vir, tu vires, ele vir, nós virmos...
— Mas, professora, desculpa interromper.
— Diga, Paulinho.
— É que ninguém fala assim... Nunca ouvi isso. Sempre falei e sempre ouvi “quando eu VER o filme, tá-tá-tá...”.
— É verdade.
— Então por que a senhora está ensinando que a conjugação do verbo “ver” é assim? Por que é que a conjugação certa é essa aí e não a que todo o mundo fala?
— Então, Paulinho... Excelente pergunta! As duas estão certas. Mas essa diferença entre o que eu estou ensinando e o que todos usam no dia a dia tem a ver com um conceito chamado “norma”. A norma do dia a dia é uma: “quando eu ver o filme, blá-blá-blá...”. Já a norma ideal é outra: “quando eu vir o filme, blá-blá-blá...”.
— Hmmm... Então são duas normas diferentes, e cada uma é usada em momentos diferentes? Seria tipo isso? Em que momento a gente deve usar essa norma aí que a senhora está ensinando?
— Sim, sim... Olha... A norma do dia a dia eu não preciso efetivamente ensinar, porque todo o mundo aqui já usa na fala diária, certo? Mas a tal norma ideal eu preciso ensinar, não só porque ela existe, mas também porque é usada em situações mais formais, principalmente na escrita. Por exemplo, ninguém precisa te ensinar a comer, ou seja, a levar a comida até a boca, mas alguém precisou te ensinar a usar o garfo, a faca, a se comportar num jantar em um restaurante legal, né? Você pode não usar nada disso da maneira mais educada em casa ou comendo pizza com amigos, mas em outras situações...
— Ah... Saquei...
— Raciocine comigo: imagine que você esteja lendo um livro e a seguinte frase aparece: “Assim que ela te vir, fala que estou na biblioteca”. Se você não tiver aprendido o que é esse “vir”, provavelmente vai ficar confuso e poderá ter dificuldade de compreensão da frase. Entendeu? Logo, para ler, compreender, escrever melhor, é preciso também conhecer o máximo possível sobre as formas linguísticas menos comuns na fala do dia a dia, concorda?
— Ah, entendi. Faz sentido, professora. Então a senhora precisa ensinar aquilo que eu não sei sobre a língua, quer dizer, aquilo que a maioria não usa frequentemente, mas que existe na língua, né?
— É por aí. Eu preciso ensinar a vocês as formas de uso da nossa língua, principalmente aquelas que são usadas mais formalmente, sobretudo na escrita, porque vão aparecer muitas situações comunicativas na sua vida em que você vai precisar dominar essas formas linguísticas menos comuns, tanto na fala como na escrita. Entendido?
— Valeu, professora. Entendi, sim. Obrigado!



Sempre que entro numa turma nova uso esse texto…✨👌
Isso é verdade. Foi uma experiência maravilhosa entender uma frase de Machado de Assis que possuía um dativo de posse (se não, perguntaria-me: "O que diabos esse 'lhe' faz aqui?" Kkkkk). Entender cada termo faz total diferença para compreender a mensagem que o autor passa.