A moda passa, o estilo permanece*
“Não me alinho entre os que consideram o tempo fator e fautor da provisória verdade. Para mim, uma ideia, uma doutrina, uma teoria, um sistema não é bom porque é novo, nem mau porque é velho. Por isso a temidíssima palavra ‘ultrapassado’ não me causa a menor mossa. O que me assusta é estar efetivamente errado, nunca o ‘estar fora da moda’. (...) Felizmente não caio na ‘cronolatria epistemológica’.”
(Gladstone Chaves de Melo, em “Iniciação à filologia e à linguística portuguesa”, 1981, p. 94)
Sim. A moda agora é outra.
Dizem muitos linguistas brasileiros contemporâneos que o conceito de “norma culta” diz respeito ao uso da língua (falada ou escrita) por pessoas cultas em situações discursivas mais formais.
Impossível discordar.
Isso implica, segundo eles, que a “norma-padrão” (o modelo supradialetal de uso da língua derivado dessa “norma culta”) pode ser baseada, por exemplo, em... textos jornalísticos.
Impossível não coçar a cabeça.
Acompanhe o raciocínio:
Esses mesmos linguistas definem uma pessoa “culta” a partir de 3 critérios — com diploma de nível superior, do meio urbano e capaz de estilizar seu discurso em situações formais.
O gênero textual “notícia” ou “reportagem” escrito por uma pessoa com essas características acima — por exemplo, qualquer jornalista de alguma mídia de (aparente) prestígio, como O Globo, Estadão, Folha, etc. — conteria em si (num passe de mágica e sem nenhum crivo de histórico de boa linguagem) tal “norma culta”; afinal, o jornalista se enquadra positivistamente nos critérios estabelecidos de “usuário da norma culta”.
O resultado (desastroso!) é que qualquer “analfa diplomado” com um smartphone na mão e um blog amador feito em 7 minutos na internet também acaba sendo categorizado por esses linguistas como usuário “culto” da língua.
Agora respira fundo e pensa comigo...
Percebe que o estabelecimento de determinados critérios é capaz de enquadrar facilmente alguém na categoria de “usuário culto da língua”, aumentando sobremodo o conjunto de pessoas contidas na categoria “usuário culto, que usa a norma culta”?
Percebe a flexibilização de quem hoje pode figurar no admirável grupo de “pessoas cultas”? Basta ter um diploma de nível superior e — puf! — o pacote de letramento e de cultura já vem na mensalidade.
[Sim, meus amigos... O tempo passa, e os critérios mudam. Para melhor? Leia o primeiro parágrafo novamente.]
E digo isso porque antigamente (até a década de 1960, mais ou menos, antes do “ingênuo” projeto NURC) a visão quase unânime de “usuário culto da língua” — que usa, portanto, a “norma culta” — pertencia a OUTRA categoria, porque os critérios de “norma culta” eram OUTROS. E quais eram?
Segundo o respeitado filólogo brasileiro Gladstone Chaves de Melo, a norma culta se configura como “o uso linguístico das pessoas verdadeiramente cultas”, isto é, o uso linguístico encontrado “nos bons autores, nos artistas da palavra, nos homens que possuem talento verbal, nos que têm um agudo instinto, um primoroso sentimento da linguagem”.
(Gladstone Chaves de Melo, em “Iniciação à filologia e à linguística portuguesa”, 1981, p. 22)
Entenda uma coisa aqui: eu não sou um saudosista da língua de outrora nem acho que a língua de 2026 é igual à de 1960. É óbvio que não é. É óbvio (ululante) que a norma gramatical de 2026 não pode ser exatamente igual à de 1960. É óbvio que precisamos dar um F5 nos estudos gramaticais e na atualização da norma-padrão, mas precisamos ser prudentes, criteriosos e, sobretudo, atentos ao dito por João Ribeiro há mais de um século: “nada mais velho que a moda, nada mais fácil que a originalidade das desobediências”.
Perguntas francas:
Se você (cidadão comum) tivesse de adquirir uma gramática, a fim de estudar a sua língua e aprender a tal “norma-padrão” para aprimorar a sua linguagem, você escolheria uma gramática baseada mais na linguagem dos jornalistas atuais ou mais na linguagem dos consagrados escritores da literatura (inclusive contemporâneos)? Qual linguagem lhe parece mais sofisticada, mais depurada, mais consciente, mais polida: a dos jornais/revistas, que são escritos comumente a toque de caixa, ou a dos bons livros literários, que levam anos de maturação?
Especificamente sobre isso, apresento um pensamento do respeitado linguista romeno Eugenio Coseriu, o qual considerava as linguagens jornalística e científica uma “redução” da linguagem literária, uma vez que “é nelas que se suspendem ou desatualizam muitas funções linguísticas que, em sua máxima potência, estão presentes no falar literário”.
(Linguística del texto: Introducción a la hermenêutica del sentido. Edición de Óscar Loureda Lamas. Madri: Arco Libros, 2007, p. 245)
Sim, a linguagem literária é o uso da língua em seu “estado de arte”. É exatamente por esse motivo que, ao longo de dois milênios, ela serviu de modelo, de “ideal linguístico” para o chamado “bom uso” da língua registrado nas consagradas gramáticas normativas, que sistematizam a “norma-padrão” — um produto cultural histórico cuja sociedade elegeu e/ou aceitou (até então!) como norma de referência supradialetal, influenciando reciprocamente a norma culta, a qual, nas palavras do gramático Celso Cunha, corresponde a “uma entre as muitas variedades de um idioma... sempre a mais prestigiosa, porque atua como modelo, como norma, como ideal linguístico de uma comunidade”.
P.S. Eu não sou avesso à linguagem jornalística e à linguagem acadêmico-científica como “corpus” para o estabelecimento da norma-padrão atual. Não mesmo! Só é preciso buscar os gêneros textuais mais polidos dessas linguagens, realmente bem escritos.
*Frase atribuída a Coco Chanel.
Recomendo a leitura do meu novo livro: “Norma culta inculta: a subversão da gramática”. Disponível em e-book pelo Kindle e em versão física. Clique aqui.


